ARTIGO DISCOVERY
Um tema técnico com impacto financeiro relevante
O estorno de créditos de ICMS está diretamente ligado ao princípio da não cumulatividade, previsto na Constituição Federal e regulamentado pela Lei Kandir. Trata-se de um tema com impacto financeiro relevante para as empresas, especialmente no agronegócio, onde a combinação de baixas cargas tributárias na saída, benefícios fiscais e operações com transferências entre estabelecimentos torna o estorno um dos principais pontos de sensibilidade na apuração do imposto.
A legislação assegura ao contribuinte o direito ao crédito do ICMS nas entradas (art. 19 e 20), masestabelece restrições importantes:
Não há manutenção integral do crédito quando a operação subsequente não gera débito de ICMS
Nesses casos, o contribuinte deve anular (estornar) o crédito anteriormente apropriado (art. 20, §3º e art. 21)
Portanto, o estorno funciona como um mecanismo de ajuste da não cumulatividade, evitando que créditos sejam mantidos em operações que não geram tributação na saída.
Mas a aplicação prática vai além da regra geral. Embora a lógica legal seja objetiva, sua aplicação ocorre dentro de um sistema complexo, marcado por benefícios fiscais, diferentes cargas tributárias entre produtos, regimes específicos e operações com tratamento distinto (como transferências). Nesse contexto, o estorno tenta equilibrar um sistema que, na prática, não é uniforme.
O ponto crítico: a metodologia aplicada
A legislação define que se deve estornar, mas não define exatamente como calcular o estorno em todas as situações.
Na prática, isso abre espaço para diferentes abordagens e, consequentemente, diferentes resultados
financeiros.
O que se observa no mercado
Ao analisar dados fiscais de diferentes empresas, observa-se padrões consistentes:
Variações relevantes no valor do estorno conforme a metodologia adotada
Períodos em que o estorno supera o próprio crédito apropriado
Diferenças relevantes entre o valor apurado e o valor recalculado
Solução: Recalcular o percentual de estorno de crédito, aplicando uma metodologia diferente e mais eficiente de cálculo, de acordo com cada operação de saída da empresa.
Metodologia ROIT: análise item a item com base na operação real
A abordagem praticada parte de um princípio simples: o estorno deve refletir a realidade da operação e não apenas uma regra média.
Para isso, aplica-se uma metodologia estruturada que envolve:
Análise produto a produto por NCM
Recalculo da carga tributária de entrada e saída para cada item
Identificação da diferença real de tributação
Cálculo técnico do estorno
Aplica-se o estorno apenas sobre a parcela efetivamente impactada
Considerando a proporção real entre operações
Tratamento das transferências
Segregação das operações com manutenção de crédito (LC 204/2023)
Evitando estornos indevidos sobre operações que não encerram a cadeia
Simulação de cenários
Cenário com manutenção de crédito
Cenário sem manutenção
Cenários simplificados (CST)
Comparação com a prática da empresa
Confronto do estorno realizado com o estorno recalculado
Identificando diferenças e oportunidades
Esse processo permite sair de uma visão genérica e chegar a um cálculo aderente, defensável e
economicamente eficiente
O que isso revela na prática
Ao aplicar essa metodologia, é possível identificar situações como:
Empresas que já possuem cálculo por produto, mas sem tratar corretamente as transferências
Diferenças relevantes entre cenários metodológicos
Concentração do estorno em poucos itens
Em um dos casos analisados:
Estorno praticado: ~30,8%
Estorno recalculado (com manutenção de crédito): ~27,6%
A diferença está diretamente relacionada ao tratamento das transferências, que representam cerca de 14% do faturamento. Esta análise resultou em uma oportunidade relevante de crédito a partir de ajuste metodológico.
Como gerar valor para as empresas
A partir dessa análise técnica, é possível:
Identificar créditos que deixaram de ser aproveitados
Ajustar a metodologia de estorno à realidade da operação
Reduzir impactos indevidos na apuração
Gerar recuperação de valores
Evitar contingências